Aquele episódio em que o forjador faz seis escudos numa tacada só

Aquele episódio em que o forjador faz seis escudos numa tacada só

A construção de escudos para a prática do Swordplay (ou mesmo para decoração, caso você tenha uma parede vazia na sua sala e ache que quadros e fotografias não refletem o seu espírito guerreiro) exige uma habilidade que anda meio em falta nos dias de hoje: a capacidade de esperar. Este é um talento que alguns também conhecem como paciência. Muitas das etapas da confecção desse tipo de equipamento envolvem longos intervalos de secagem — desde a secagem da cola que une as diferentes camadas de material que compõem a prancha (ou base) dos escudos até a secagem das tintas utilizadas na decoração do frontão. Por isso, é até normal trabalhar em mais de um projeto ao mesmo tempo quando estamos fazendo um escudo. Afinal, enquanto aguardamos a conclusão dos processos de secagem e moldagem, por que não aproveitar esse tempo para trabalhar em mais um escudo? Ou mais dois? Ou mais cinco?

Macacos me mordam, Wilber! Por que você não vai assistir a umas séries ou ler um livro?

Pois é, tudo aconteceu em uma época em que os escudos do tipo heater (os modelos tradicionais usados pelos cavaleiros medievais, com formato triangular e a superfície abaulada) ganharam popularidade entre os guerreiros da Gladius Swordplay, o grupo de simulação de combate medieval do qual os nossos forjadores fazem parte. E como a demanda por esses equipamentos foi grande, a forja cantou e seis escudos nesse padrão surgiram para aterrorizar os campos de batalha.

Sabemos que tem SETE escudos aí na foto, mas o redondinho à direita é só o ponto fora da curva.

Todos os seis heaters foram criados do mesmo jeito: a base do escudo é composta por três ou quatro camadas de papelão paraná nº 60. As camadas são cortadas individualmente e depois são coladas umas às outras. Como a base é feita com papelão, normalmente se utiliza a cola branca (ou cola PVA) mesmo. Essa cola tem a secagem mais demorada, mas ten também algumas vantagens sobre a cola de contato: primeiro, porque a cola branca é bem mais barata quando comparada à de contato. E também porque, como a cola branca demora um certo tempo para secar, isso ajuda na próxima etapa da confecção do escudo: a moldagem.

A moldagem é a fase em que os escudos ganham a curvatura característica da sua superfície: a prancha é colocada em uma prensa específica que vai lhe dar o formato desejado (especialmente os escudos feitos com base em madeira ou derivados). No caso dos escudos de papelão, essa moldagem pode ser feita simplesmente com tiras de nylon tensionadas ao redor do escudo. E é aqui que a cola branca mostra a vantagem que tem sobre a cola de contato: como sua secagem é mais lenta, isso permite que as camadas deslizem umas sobre as outras e se acomodem melhor à forma abaulada que o escudo vai ter.

E essa superfície abaulada é uma das grandes sacadas da construção desse tipo de equipamento: o formato em arco distribui o peso (e os impactos dos golpes, no caso específico dos escudos) das estruturas e permite que sejam feitas com menos materiais ou suportes. Isso é algo que vem desde a época dos romanos, que descobriram que estruturas construídas em forma de arco eram mais resistentes e leves do que as demais.

E se os romanos já sabiam disso, quem somos nós para duvidar?

Depois da moldagem e da secagem, fixamos as correias para manipulação e transporte do escudo na parte interna e uma camada de EVA de 4mm de espessura no frontão, já que todos eles seriam usados nas arenas de Swordplay. Após essa etapa, chegou a hora de fazer a decoração. Todos os escudos retratados neste post foram decorados com vinil adesivo; as cores e brasões escolhidos pelos donos foram cortados e, posteriormente, aplicados na superfície. Finalmente, o frontão já decorado foi recoberto também por mais uma camada de vinil adesivo, mas desta vez transparente, que teria a função de proteger os brasões.

É importante frisar que esses escudos foram criados em 2015 e que, de lá para cá, algumas coisas mudaram no processo de construção dessas peças. Especificamente, os heaters criados pela Forja Mestra hoje em dia contam também com um reforço extra de PVC na parte de trás para ajudar o escudo a manter a curvatura e aumentar a sua resistência, e as técnicas de decoração que passamos a utilizar envolvem habilidades como o entalhe e a pintura diretamente na superfície de EVA, sem a necessidade de usar o vinil adesivo. Ainda assim, se fôssemos elaborar uma decoração baseada em vinil, provavelmente usaríamos uma máquina de corte, que permite que os desenhos sejam elaborados diretamente no computador e passados para o vinil, com cortes e contornos precisos.

Mas deixaremos esses designs modernos para um post futuro. Esses seis escudos embelezaram muito os campos de batalha por onde passaram e alguns estão em atividade até hoje. Em breve vamos mostrar como as nossas técnicas de design e construção de escudos evoluíram nos últimos anos. Continuem com a gente!

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